sexta-feira, 6 de agosto de 2010

samsa - virginia flores


Eu poderia dizer tudo falar todos os meus palavrões o caos que você colocou na minha vida e no meu corpo. Mas o caos eu permiti, eu mesma permiti o caos e a doçura dos teus braços, assim, como uma tonta que se entrega ao príncipe que nunca existiu.
Vejo agora esta barriga inchando de dor e prazer, uma loucura, as minhas pernas moles, os meus dentes rangendo de raiva e de ausência. Porque eu sinto as patinhas se movendo, as asinhas roçando aqui por dentro, porra, eu sei. É você crescendo dentro de mim, mas isso não é amor, nunca foi, é apenas a desorganização do corpo, o caos da boca e dos arrepios.
Lembro ainda das tuas asas, dos teus olhos quentes. Lembro mais que eu perdi o controle, eu, sempre tão centrada, os pingos nos iis, uma mulher com o mundo aos seus pés. Aos meus pés agora restam apenas o inchaço e o calor, as patas de elefanta.
Mas eu quis, ah!, como eu quis... E foi como abrir a janela para a tempestade. Uma ventania, você, suas asas espalhando papéis no meu quarto, levantando os lençóis, o sopro sedutor.
Hoje considero tudo isso um nojo, você um nojo, jamais outra vez. Mas levarei tudo até o fim, ainda me resta um pouco de vergonha na cara, essas tuas patinhas fazendo cócegas na minha barriga, essas asinhas que vão se abrir em breve e partir em busca de outra como eu, outras. Mas não pense você que eu vou dar ao inseto o nome de Gregor Samsa, como você quer.

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