quarta-feira, 14 de julho de 2010

Interrogação



 Tenho vontade de encher parágrafos e mais parágrafos com pontos de interrogação. É tudo o que eu penso em escrever. Tenho mil perguntas para fazer e parece que quanto mais respostas, mais dúvidas surgem. Quanto mais me conheço, menos sei o que fazer de mim. Quero explodir, mas me contenho, quero me impor, mas me escondo, quero gostar, mas racionalizo. Onde vou chegar se não me soltar? Tenho medo de ficar presa nessas linhas. Tenho medo do que eu escrevo se tornar realidade. E se eu ficar muito Verônica? E se eu tiver que ser alguma coisa pra sempre, porque o que está no papel não se apaga mais, e estou escrevendo quase certezas sobre mim o tempo todo?

 Crescer lendo livro mulherzinha fez com que eu jamais me conformasse com metades. Quero os melhores romances, ou prefiro ficar sozinha. Quero as melhores lembranças, ou prefiro não lembrar. Ou vivo intensamente, ou vou levando essa rotina que não incomoda, não interfere, não fere, mas também não é vida. Vou dispensando tudo o que não julgo suficiente pra me roubar a solidão. Vou excluindo do meu convívio todos que não parecem prontos pra marcar meu dias. E vou me excluindo um pouquinho também, vou me dispensando sem pudores, porque é mais fácil me deixar de lado do que lidar com a minha falta de coerência.

 Mais questões, mais lacunas. Quanto mais aprendo sobre mim, mais boicoto meus conhecimentos. Quero contradizer todas as afirmações que faço lutando para entender o que se passa em mim. Não devo ser tão complicada, mas ser extremista faz com que os sentimentos que divido com toda mulher sirvam como base pra decidir tudo na minha vida. Indecisões são capazes de preencher meu dia, mudar minha vida, acabar com meu humor. Possibilidades tentam perfurar meu estômago, atravessar meu corpo, tentam me destruir antes mesmo de terem permissão para acontecer.

 Estou ficando morna de tanto não me permitir ir além, de tanto calcular meus passos, me esconder em falsa timidez, evitar sentimentos, evitar relacionamentos, evitar gente só por ser gente e pela possibilidade de alguma coisa dar errado. Posso correr o risco de dar certo?

 Estou prestes a mergulhar. Dessa vez, não insistam, vou dispensar o equipamento de segurança.

(Veronica H.)

Loucuras tão sóbrias



É madrugada e a casa ainda grita. Os finais de semana viraram dias longos pra mim. Tão cheios de vontade de dormir sem sono. Tão cheios de fugas e tentativas de alegrias frustradas. Ninguém tenta entender minha distância necessária, nem colabora com a minha necessidade de sumir. Posso exigir isso de alguém?
Quem sou eu pra contradizer a literatura e tentar me livrar do que eu conquisto? Eternamente responsável... Talvez meu problema seja esse: assumir mais responsabilidade do que eu me sinto capaz de cuidar.
Eu não sei onde foi que me perdi. Sei que faz tempo e faz mal. Sei das noites que a sensação de ausência me manteve desperta e sem vontade de qualquer coisa. Eu me criei vazia e não soube preencher. Mas sinto que ainda necessitando de distância e tempo pra pensar sozinha, eu quero mesmo é alguém que me faça mudar completamente de opinião. Que faça meu corpo querer companhia nos momentos em que minha mente insiste pela solidão. Que faça meu coração lutar contra minha razão que tanto toma conta de mim sem saber se é isso mesmo que eu quero. Se nem eu sei o que quero.

(Veronica H.)

VIRGINDADE EMOCIONAL - Martha Medeiros

 Todo mundo sabe o que é sexo. Nasce intuindo e em seguida vira PhD, pois basta ligar a tevê ou abrir uma revista e as informações caem no nosso colo com riqueza de detalhes. Masturbação, sexo oral, ponto G, preliminares, orgasmos múltiplos: você pode ser virgem na prática, mas sabe tudo na teoria e vai mandar bem quando chegar sua vez.
 A pessoa virgem têm suas dúvidas, claro, e cria algumas fantasias antes da estréia, mas logo descobre que sexo é uma atividade saudável, prazerosa e que fica melhor com o tempo. Não tem muito mistério. O problema é quando se é virgem no coração.
 Virgindade emocional não tem a ver com juventude. Você pode ter vida sexual ativa desde os 14 anos e chegar aos 30 sem saber nada sobre o amor.
 Pode ter transado com dezenas de pessoas e uma que nunca lhe encostou um dedo abalar você de forma surpreendente. Pode estar casado e com filhos, achando-se o bambambam dos relacionamentos, e ser nocauteado por uma paixão que põe por terra todas as suas certezas. Podemos ser experts em sexualidade, mas passamos a vida engatinhando quando o assunto é amor.
 De certa maneira, é uma virgindade que não se extingüe. Mesmo os mais experientes, aqueles que já amaram muitas vezes, até esses podem ser flagrados em uma situação-limite.         
 A primeira vez em que se é deixado. A primeira vez que ficamos fragilizados com a ausência de uma pessoa. A primeira vez que sentimos um ciúme doentio. A primeira vez que ficamos dependentes de uma relação. A primeira vez que alguém fica dependente de nós. A primeira vez que traímos. A primeira vez que somos traídos. Tudo isso é um aprendizado muito mais intenso do que o sexo, e muito mais demorado.
 Se isto parece assustador, por outro lado é excitante saber que ainda existe muito terreno a ser explorado, muitas lições para serem aprendidas, muitas posições a serem adotadas diante de um impasse amoroso, posições que nada tem a ver com o Kama Sutra. Não há manual de instruções para o amor, não há reportagem que nos ensine a melhor performance. 
 Emocionalmente, por mais que já tenhamos vivido, seremos sempre um pouco virgens, aguardando a próxima primeira vez. 

Independência ou morte - Martha Medeiros

Tem uma série de coisas que a gente deseja na vida: uma profissão que nos realize, uma intensa vida afetiva, viagens, amigos, descobertas. Mas se eu tivesse que resumir em uma única palavra o que considero a mais importante conquista, esta palavra seria independência.
Começou a contagem regressiva para o 7 de setembro, dia em que se comemora a independência do Brasil. No entanto, prefiro comemorar a minha, a sua, a nossa.
 Não há quem não sonhe em trabalhar por conta própria, ser patrão de si mesmo. Os que conseguem não trocam por nada. Como conseguir isso? Dominando um ofício, indo além do que os outros aprenderam, fazendo as coisas do seu próprio jeito, arriscando. Parece difícil, e é. E mais difícil ainda é ser independente no amor.
 Paixão não entra nessa conversa. Quando estamos apaixonados somos todos dependentes de telefonemas, de e-mails, de declarações, de presença constante. Já o amor, que é um estágio posterior, mais sereno e seguro que a paixão, permite o desenvolvimento da independência. Você não precisa estar em todos os lugares que o seu amor está, você não precisa concordar com tudo o que ele pensa, você não precisa abdicar dos seus projetos, você se sustenta, você conta, você existe.
 Tem gente que abre mão disso por puro comodismo. Prefere ser uma sombra, um sparing . Defende-se dizendo que não tem outro jeito. Mentira. É uma escolha.
 Ir sozinha ao cinema. Viajar. Pagar sua dívidas. Dirigir. Não afligir-se (tanto) com a opinião alheia. Saber cozinhar pra si mesmo, entreter-se com hábitos solitários como a leitura, pegar um táxi, resolver os próprios problemas, tomar decisões com confiança. Não “precisar” dos outros, e sim contar com os outros para aquilo em que eles são insubstituíveis: companhia, sexo, risadas, amizade, conforto.
Se você ainda não atingiu este estágio, suba num cavalo imaginário e dê seu grito do Ipiranga. Ficar amarrado à vida alheia faz você viver menos a sua. Nada de fazer-se de desentendida só para não se incomodar. Incomode-se. Dependência é morte.

As razões que o amor desconhece / Sentir - se amado



 As razões que o amor desconhece
   Você tem uma inteligência bem acima da média. Lê livros, revistas e jornais. Gosta de filmes de Woody Allen, dos irmãos Coen e de Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido em comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego estável, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, entende muito de computador e seu fettuccine ao molho de ervas é de fazer qualquer um comer ajoelhado. Você tem bom humor não pega no pé de ninguém e acredita que ainda não inventaram nada melhor que sexo. Com um currículo desses, criatura, por que diabo está sem namorado? Há, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento mais uma equação matemática : eu maravilhosa + você encantador = dois apaixonados. Não funciona assim. Ninguém ama a outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrario os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo-lhes a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece a razão. 
 O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Costuma ser despertado pelas flechas do cupido que por uma ficha limpa. Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai ligar e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário e só escuta Ernesto Gismonti e Sivuca, Sivuca e Ernesto Gismonti. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado, e, no entanto, você não consegue dispensa-lo. Quando a mão dele toca em sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita de boca, tem uma certa afeição por répteis e escreve poemas em noites de temporal. Por que você é vidrada nesse cara?
 Não pergunte a mim. Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas a que ela não respondeu, você deu flores e ela deixou a seco, você e levou para conhecer sua mãe e ela foi de blusa transparente. Você gosta de Rock e ela de trilha de novela, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano-Novo, nem no ódio vocês combinam.              

 Então? Então que ela tem um jeito de passar a mão nos cabelos que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, se veste bem e é fã de Marisa Monte. Isso são apenas referências. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pelo modo como os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos espera. Ama-se por causa de uma massagem nos ombros, pela maneira de sorrir só com um lado da boca, pelas peculiaridades. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos há as pencas, bom motoristas e bons pais de família, está assim, ó. Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor de sua vida é.




 Sentir-se amado


A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização


      O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama.



      Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.

Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se.
A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também?
Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.
Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. "Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho."
Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d’água. "Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando?" Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. "Vem aqui, tira esse sapato."
Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido.
Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.


      Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.



(Martha Medeiros)

terça-feira, 13 de julho de 2010

desalinho

...Perfect!






Desalinho


Quer almoçar comigo amanhã? Preciso contar o que eu sinto quando saio sem você e no que estou pensando quando olho sem piedade para todas as mulheres que cruzam o meu caminho. Entenda, de você eu não espero mais do que estar ao meu lado até o fim. Acordarmos todos os dias juntos. Você ignorar insistentemente as minhas tentativas de arrancar da sua boca qualquer frase que revele a posição que ocupo numa hipotética escala de grandes amores da sua vida. Mas sei que você é incapaz de dedicar seu corpo só a mim.

Invejo seu cinismo. O modo prolixo como nega sua dependência e reafirma com a ladainha das seis horas seu credo inabalável no amor livre. Nesta altura da vida o que me faltava eram ideais libertários! Saiba, eu prefiro a caretice das declarações de amor, as mãos dadas, o presente no dia dos namorados.

E vou me desculpando pela ingenuidade descrita sem vergonha nesta folha branca, enquanto ouço aquela fita k7 que você gravou pra mim quando ainda não estavam domesticados os gravadores de cd e acabáramos de fazer a primeira comunhão.

Foi tão logo você me deixou. Saí procurando o que abraçar. Pensei há quanto tempo eu só sentia o gosto da sua pele e só sabia da textura engraçada do seu cabelo. Meus braços cruzados tinham a forma do seu corpo, nada mais se encaixava. Pensei em todos os xingamentos da língua e queria que estivesse ao meu lado para não precisar recitá-los em voz alta no meio da rua. Eu nunca falei palavrões pra você.

Também não conjuguei o verbo amar. Mas isso não demorou você percebeu. Tanto que foi embora. Sei que espera que eu esteja no mesmo lugar, com o mesmo vento sul levantando meu cabelo, quando você chegar. E eu vou estar. A vida foi suspensa quando seu ônibus partiu. Confesso que procurei um lenço para balançar, um chapéu de feltro cinza para acenar, mas você não olhou pela janela. Gosto de imaginar que o ônibus quebrou na estrada e você ainda não chegou ao seu destino. É por isso que demora tanto a voltar.

Depois andei a tarde toda pelas ruas asfaltadas do meu bairro juntando galhos secos de árvores escassas. Arranquei duas ou três folhas do mês de dezembro da minha agenda. Pedi emprestado ao porteiro do prédio seu isqueiro bic amarelo. Abri a porta do meu guarda-roupa e escolhi a blusa de malha branca com estampa do Belle and Sebastian. Aquela que você usava para dormir quando já era tarde demais para ir embora. Depois de jogar da varanda as cinzas do que me lembrava você, decidi que era hora de apagar minha memória.


(  siria grei  )

abricó


  Mais um texto com a seguinte temática: será q é homem?
 Nada contra os gays, mas ai que tá,  já dizia o poeta Falcão : Homem é homem, menino é menino, macaco é macaco e viado é viado! - não necessariamente nessa ordem, mas a alteração dos fatores não altera o produto.
Tive que anexá-lo ao blog, néah...




abricó



Chegará com uma hora de atraso de propósito ao encontro com Luiz Augusto Mendes Campos Carneiro de Sá. Nunca tinha saído com um cara com o sobrenome "de" e enorme. Será que o nome é proporcional, que nem número de sapato? Quer criar suspense e não quer que ele imagine que ela é do tipo que "dá" mole, do verbo transar e não o "de" do Sá. Resolve ir de forma classuda, vestido longuette sem decote, pouca maquiagem, cabelos presos num coque tradicional. Só vai falar, aliás, pronunciar como a nobreza faz, algo que cause impacto. Jules Renard, autor francês do século XIX, leu algo sobre este cara na revista de TV. Citará o Jules, a revistinha jamais. Célula-tronco também é sintoma de cultura. O cara é um industrial filósofo, um intelectual rico de esquerda, que adora pobre, mas não deve gostar de quindins, nem de guaraná. Vai pedir carpaccio com vinho. Instrumento? Violino. Tomates? Só secos, pois pega bem. Queijo? Ricota. Fruta? Figo. Profissão? Projetista de unhas, os sábios ricos vivem de projetos, manicure é de quem faz mobral. Sua casa terá varanda, quintal é coisa anticultural. Flor preferida será orquídea, rara e cara. Não falará gírias, nem palavrão. Finalmente, chegou seu momento de ascensão. Seu nome agora é Vânia Maria, Vaninha lembra cama. Ah! Bateu saudades do Ronaldo, bronco pra caramba, tronco sem célula, mas faz uma picanha como ninguém na churrasqueira e na cama também. Ela pode saborear tudo que adora, meter o dedo no rocambole, o bole-bole, o dedo, e até o ronca depois do bole! Ele nunca fica mole.

Só não abrirá mão do sapato vermelho cintilante com tirinhas. Naldinho goza só de olhar, e se o Luiz Carneiro de Sá Augusto Campo Mendes não gostar - será que o nome dele é esse mesmo?! - é boiola.

Longuette nunca lhe caiu bem, lycra que é o diabo. Lembrou novamente das compras do carrinho dele no supermercado no dia em que o conheceu. Licor de abricó é coisa de viado. Abricó!!! Vai que troca a vogal final?

Pegou o telefone e ligou pro Naldão.

- Traga a cerva e o violão. Tô só de combinação e com aquele sapato.

- E o conde D'Eu?

- Era gay, preferiu dar pro Jules Renard.




( rosa pena )

cruzadas

 Me senti a Sharon Stone dos pobres lendo esse texto. 
 Adorei cada extrofe. Espero que gostem também!




 Cruzadas




Ele chegou e se foi com a luz da lua nos cabelos. Depois choveu, mas o cheiro ficou. Não tomei banho porque o cheiro dava tesão e então eu gozava de novo. Melhor ter partido, no entanto. Bom lembrá-lo uivando, um boi no abate, eu te suplico. A fantasia dá de dez a zero na realidade.

Dormi muito e acordei faminta. Nada comi para me sentir ainda mais esfomeada e só depois, ao matar a fome, poder ficar completamente feliz a ponto de explodir. Felicidade a gente provoca. Ela custa pouco. Quando é cara, não é de boa qualidade.

Decidi por uma gororoba na esquina. Gostei de acordar, sair por aí, minissaia e sem calcinha, rabo-de-cavalo loiro, tão livre! Tão bom ser mulher! Sair reparando na arquitetura brega e modernosa dos novos prédios, nos paralelepípedos, nos sapatos, no pichado do muro e nas coisas que ninguém repara.

Sentei-me ajeitando a toalha xadrez puída. Suco de melão, cruzo a direita, por favor, cara de vontade de comer. Cruzo a esquerda. Um beirute. Há uns cinco homens no boteco. Barrigudos, desolados. E capricha, que eu tô morrendo de fome.

Todos olhavam. Corei. Veio o suco, o prato, que vergonha, comi de cabeça baixa. Devagar, como se ritual, saboreando o tempero barato e picante. Pobres anoréxicas, quanta infelicidade. Todos olhavam. Aí lembrei daquele filme da Sharon Stone. Os homens são uns bobalhões. He he...

Tchau, obrigada, pode ficar com o troco. Antes de ir, porém, lembrei novamente do filme. Mais uma vez corei. E cruzei de novo as pernas, desta vez lentamente, levantando um pouco mais entre o vão. A Sharon Stone dos pobres.

Ouvi algumas obscenidades e saí, empinando os peitos, tão estranha é a vida sobre a Terra.


 (mônica oliveira)




Olhos

  A maioria dos homens que se dão o trabalho de mexer com as mulheres não as enchergam como tal... como uma mulher que quer se descoberta, que quer ser tratada, olhada como mulher.





olhos


Hoje um homem olhou
para mim na rua.
Não era bonito nem feio
mas com certeza era um homem.

Olhou meus olhos surpreso
pois eu estava olhando os seus.
Olhou minhas pernas também
e eu já havia olhado as dele.

E quando passou por mim
virou-se como os homens fazem.
Mas abaixou os olhos
e tirou-os dos meus que olhavam os seus.

Hoje alguém olhou
para mim na rua.
Era um homem eu sei
pois só os homens olham assim.

E quando o tempo passa se arrependem
de não terem olhado as mulheres.



( Samantha Silva)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Porra louca eu?

 Então, a quem possa interessar: não mudei de opinião, mas também não mudei de comportamento. Sigo tendo noções de adequação. 
As vezes adorando, as vezes digerindo. 
Não curto tendências. e isso é válido para TUDO! Mas gosto de provocar minha auto crítica, observando o que é preferência atual. Sigo o meu extinto, vontades naturais, estilo aguçado, e isso me molda, isso me torna.
 Sou a mesma, embora não a mesma de tempos atrás. Me renovo, me desenvolvo, sem contradições. O que é típico da minha essência não será revertido. Meu conceito não muda. Nem minha ideologia. Se isso te surpreende, azar o seu. O que me torna inconstante é a vontade de reiventar o já existente, é um processo de desenvolvimento - sensibilidade, aprovação, assimilação e inevitável transformação. 
 Não espere de mim ser aquilo totalmente diferente a cada semana pelo simples hábito de mudar. Não sou tão porra louca assim. A questão é que tenho mais feeling e coragem que você, meu bem...
 Se mudo, se renovo, se mantenho ou não, é pura expressão, reflexo da sensibilidade apurada. Sou apenas fiel á minhas necessidades e preferências. Consistente ou fútil para você, para mim é fruto de uma natural aprovação interior, mais consistente e sincera impossível. 
  Acredite, ainda tenho muita disposição para me surpreender, constantemente, no entanto, implacavelmente não existem muitas razões para o decorrer de surpresas. Talvez preciso viver mais - conhecer mais gente, novos ares, para me surpreender com atitudes de homens frouxos e de mulheres recalcadas.
 E esse processo é contínuo. Também tenho meus momentos retrôs, até por que também sinto saudades, esse é meu lado humano mais vulnerável. Me rendo ao retroativo, mas sei que não por completo. Uma vez rainha, voltar a ser princesa só superficialmente. 
  Meus complexos de inferioridade que me fizeram perder parte da minha vaidade. Mais não da minha feminilidade. Tem coisa mais feminina do que sentir- se feia, ou gorda e dar férias ao espelho, para depois trazer à tona auto-estima e amor incondicional por si mesma? É, mulheres 8 ou 80. Sou dessa leva de mulheres que não se influenciam por críticas de cotovelos doloridos, nem de homens que não tem competência para saber o que procuram e nem o que perdem. 
 Me arrumo mesmo. Vestir bem, para despir sempre. Não sou hipócrita. A luxúria e a vaidade caminham juntas. 
 Acredito que já tive atributos que não tenho mais. Anos me deram uma pele menos jovial, um cabelo menos forte e menos brilhante, ah, e uns quilos à mais. Mas não troco meus ganhos de hoje pelos de ontem não. Sei que se fosse possível voltar no tempo eu faria tudo novamente, só que com mais intensidade, com mais alma e menos receio.
 Se me fudi foi por que quiz, ou mereci, acreditar que a vida é um processo natural é das teses a mais realista.  
 E viver com base na realidade é sempre pedir para sofrer menos, na medida perfeita: menos ilusão e mais sensatez. Delírio e sensatez também podem caminhar juntos. em busca de delírio para viver pelas minhas vontades. E captando a realidade para que ferida alguma dure mais do que a vontade de me surpreender.

mais uma criança no mundo

 D. (chamarei assim aquela minha amiga cuja alcunha é "Danada") está grávida. Engravidou do homem que foi capaz de despertar o sentimento mais próximo do tal amor e também da dor da perca. Engravidar do homem que o coração escolheu, é a questão, boa ou ruim? Ela não sabe se isso é bom, mas nessa fase, de menos de um mês de feto, não é possível identificar o lado positivo, de ter gerado uma vida com o homem que até então é o escolhido por seus sentimentos, mas não por opção lógica, já que, embora efetivado o elo mais intenso que um casal possa ter, não há distanciamento maior, e é isso que mais machuca. Saber que elo maior não há. Tão pouco maior abandono de afeto, de amor. 
 Agora são dois corações batendo pelas mesmas necessidades. Amor, carinho, consideração, fome, sede e atenção. Tudo é mais intenso e muito mais profundo. 
 É  preciso atitude de mulher para cobrar a atitude de homem.
 E toda manhã despertar para um agora muito mais próximo do amanhã. Faltam poucas semanas para a barriga aparecer. Os pais vão saber. Mais que força e coragem, é imprescindível uma espécie de livramento divino. Milagre, é, só um milagre para manter a gravidez de D. em tranquilidade.
 E uma nova vida está por vir, não merece ser interrompida, embora não exista fase pior para que esta tenha sido gerada. 
 Cobranças inevitavelmente existentes. Revoluções aparentes... corpo mais desenvolvido, enjôos frequentes, angustia aguda, carência gritante e diversos sonhos interrompidos. 
 D. agora é uma garota interrompida. 
 Ninguém duvida que ela será uma ótima mãe. Mas D. duvida que será uma ótima mulher, realizada, independente, amada e bem resolvida.  

"Atrás dessas grades deve ter um mundo novo, só esperando que eu saia para ser descoberto. Novas pessoas esperando por novos tempos. Novas vidas esperando por novos ares. Só esperando.
Eu também espero. Espero um dia sair de casa e ter a certeza de que vou voltar. Ter certeza 
de que mais uma criança no mundo não é sinal de preocupação e sim de alegria. Eu queria poder 
ter certezas."

domingo, 11 de julho de 2010

ferida

 Sem motivo específico, mas cheia de vazios e razões para frustrar - é assim que me defino, uma espécie de trabalhadora cansada e mal paga. A rotina cansa. Mais o que mais cansa é o modo como ela é conduzida. Sem coragem. Alguma vontade. Pouca expectativa. Preciso voltar a acreditar que irei me surpreender, mas sem depositar minha esperança em futuras decepções. 
 Temo em me magoar novamente comigo mesma. Essa é a ferida que mais machuca. Eu preciso me realizar ou serei por toda vida uma derrota ambulante, optei por "tentativa" no lugar de "derrota", tentar é não hesitar, menos mal, ainda há fé e me surpreende. De surpresas que a minha vida é regida. Esse é motivo pelo qual meu caminhar é despertado. 
 Hoje há uma lágrima. Amanhã há uma cura. 
  
 "Chorei porque não era mais uma criança com a fé cega de criança. Chorei porque não podia mais acreditar e adoro acreditar. Chorei porque daqui em diante chorarei menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou acostumada com a ausência dela.”

conversa de bar

"Viver dói. E é dor que não se sente. Ou melhor, sente-se, sim. Mas não no momento em que devia doer. É como dilacerar os lábios, anestesiados, com os dentes. Por isso, a lesão pode ser maior do que a própria dor. Caminhamos todos para o vazio primordial. A matéria só tem lógica enquanto há vida. Ainda assim há quem diga que ela não tem sentido. A vida não é eterna. Mas sentido, tem sim. Muito mais do que poderia esperar alguém que a contemplasse do lado de fora. O único sistema lógico no universo é a matéria viva. É incrível a existência dessa ordem. É quase perfeita, em contraposição à desordem cósmica infinita. E, aparentemente, só existe no planeta Terra. Por esta razão, há muito tempo deixei de me preocupar com crises existenciais do tipo origem, finalidade e destino de quem vive. Entre a curiosidade e o privilégio, escolhi o segundo".
(marilena soares)

Agora é quase amanhã

agora é quase amanhã

"Obrigada por ter vindo. Eu sei que é loucura, ligar assim no meio da noite. Nos conhecemos tão pouco. Talvez não houvesse outro modo. E a noite é tão silenciosa. Daqui a pouco vai amanhecer. Não gosto de me fazer inusitada. Mas o dia só acaba quando a gente sonha. E eu queria ver você. Pensei em você. Justamente por ser mais distante de mim do que qualquer outro. E tão próxima. Assim é que vejo. Precisava olhar de perto essa expressão de espanto e surpresa. Os meus amigos não se surpreendem mais. Estão todos entediados da vida. Cheios da vida, como não dizem os anúncios publicitários. Você é silenciosa como a madrugada. E eu fico enchendo seus olhos de palavras. Não é nada sério. Acredite. Só queria viver esse dia até o fim. Só queria ver no fim desse dia esses seus olhos. Um anônimo que surpreenda esse olhar solto na rua de um dia qualquer vai sentir também assim. O que digo não é absurdo. Acredite. Quero que saiba: não tenho mais medo. Os medos estão todos em mim apaziguados. Nenhum outro receio que seja pode atravessar a linha da minha tristeza. Por isso chamei você aqui. Para que o dia comece depois do sonho. Agora é quase amanhã. E a manhã surgirá coberta de um superfície silenciosa. Acolhendo os gritos do dia. O imenso dia. Depois não saberemos mais. E não saber está entre o que é temor e possibilidade".


assionara souza

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Essencial invisível aos olhos

  Hoje eu acordei com uma mordida felina, é... minha gata mordendo "carinhosamente" meu cabelo, para que eu acordasse. Dispertei para o dia, coloquei comida para ela e também para minha cachorra, e imediatamente percebi o quanto minha presença as torna mais animadas, como se faltasse o meu despertar para que o amanhecer fosse completo. Tá, acho que me empolguei na teoria, mas não tenho como disfarçar como é nítida a gratidão de seres que se importam com a presença e atenção mais do que com palavras, conta no banco, aparência, apenas o essencial para o bem estar.
Sabe, as vezes o pensamento que ocupa minha mente é justamente em relação á atitudes dos animais versos atitudes humanas. 
É óbvio que o ser humano é inteligente, porém o que difere não é a inteligência em si, mas o modo como é demonstrado e efetivamente transmitido essa inteligência e esperteza  na relação com os demais seres, resumindo: o que é que você, como ser humano inteligente, dotado de experiências, estudos e conhecimentos, faz de relevante para os demais seres que rodeiam sua vida, direta e indiretamente? 
Confesso que não tenho grandes considerações para com a maior parte dos meus vizinhos, por exemplo, mas sei, piamente, que é pelo fato de saber, ainda que inconscientemente, que tais considerações exigem uma certa confiança e afinidade, ou seja, fatores que são impagáveis, naturais.
Animais (me refiro diretamente aos domésticos) são espertos por natureza, tem instinto de sobrevivência, e levam consigo o encargo de "atuar e se defender tão somente para sobreviver", todavia, não dispensam o carinho, também transmitem a generosidade e, consequentemente, todo o afeto. É isso que comprova que carinho, respeito e generosidade são fatores essenciais e básicos para sobrevivência. 
 Comprovações simples passam despercebidas por nós, não por que não somos suficientemente inteligentes para constatá-las, mas por não refletir sobre estas. Por serem tão óbvias a tratamos como teorias para não serem analisadas e posteriormente aplicadas de alguma maneira. Esse é o grande erro da humanidade. Dispensamos os conceitos básicos, as obviedades, consequências e necessidades essenciais, quando estas podem alterar nosso hábito, nos obrigando a perder tempo, modificar rotina e, acima de tudo, pensar e agir para o próximo tanto quanto (ou mais) do que para nós mesmos.
É por essas e outras que tenho mais amor e consideração por minha "Pincher zóiudinha" e minha "gata vira lata vesga" do que por boa parte de seres humanos, que se auto - intítulam inteligentes, superiores e relevantes.  

Segue, abaixo, o texto da autora Daisy Melo. De tão lindo, li e reli diversas vezes, me identifiquei não apenas com o conceito, e/ou desfecho, na verdade, foi mais com a introdução... vida automática, até eu que analiso cada coisinha pouco nítida, me deixo levar pela bendita rotina regrada, que consome os dias. No entanto, quem não lida com a rotina? O fundamental é não perde-la sem sentir emoção, sem resgatar e transmitir carinho, sem aproveitar, por que até na habitual rotina existem coisas simples, que alimentam muito mais que a básica sobrevivência.





Uma amizade tão delicada...




Seus dias eram sempre os mesmos. Acordava na mesma hora quando o sol ainda não nascera e tampouco a lua caíra do horizonte. Tomava o café, saía de casa às sete e até pegava a tal condução que era dirigida pelo mesmo motorista. Trabalhava sempre igual, mecanicamente, todos os dias, até que chegava a hora de ir embora. Para fazer o quê? Comer o jantar congelado, assistir aquela novela de sempre que de nova só tinha o título, o programa de entrevista que usava a mesma fórmula tarimbada de sucesso e, finalmente, dormir na sua cama, a mesma, há tanto tempo.



Mas ela tinha que sair do trabalho e voltar para casa, então, descia a rua, olhando as casas, considerando se naqueles jardins teria nascido alguma flor que, então, faria sua vida ter um quê de diferença. 

Naquele dia, enquanto contava as rosas do jardim da casa amarela, aquela com o pé direito alto e as janelas cremes sempre cerradas, a mulher o encontrou parado na esquina em frente à meia água mirrada onde plantada há uma romãzeira em flor. 

Ele observava a mulher com nítido interesse, com uma certa curiosidade nos olhos castanhos. Ela tentou não demonstrar, mas sobressaltou-se. Não podia revelar que estava com medo. Sempre soube que eles percebem quando estamos com medo e aí atacam. Mas o coração batia descompassado e, apesar de mudo dentro do peito, ouvia-o nas têmporas. Respirou fundo, passou com ar de quem não estava nem aí, enquanto ele permaneceu sentado. Apenas os olhos a seguiam — será que percebeu um ar irônico?— e, quando a mulher sentiu-se segura, deu uma olhadela de soslaio e ele continuava lá, parado. Um Vira-latas com focinho e pernas amarelas, dorso e cauda negra, peluda, parecendo um ponto de interrogação. Tinha um porte médio e um certo jeitão de cachorro que sabe o que quer da vida. 

A mulher esqueceu-se do acontecido durante toda a noite e durante o dia seguinte, até que ao sair novamente do trabalho, topou com ele, de novo, na mesma esquina. Olhava-a curioso, com a cauda movimentando-se lentamente de um lado para o outro. Fingindo não sentir medo, e tentando não correr, passou por ele tesa e, dessa vez o cachorro moveu-se e pôs-se a segui-la. “Ai, droga! O que será que ele quer de mim? Não tenho comida e nem ao menos gosto de cachorros!” Parecendo ler seus pensamentos, ele estancou com um ar decepcionado. E ficou ali até que, a mulher, um pouco surpresa, virou a esquina com pressa. Mas, no dia seguinte...

Lá estava ele parado no mesmo lugar! Ora, ela começou a ficar intrigada quando o cachorro a seguiu novamente, porém guardando uma distância respeitosa, tentando com certeza, não assustá-la. “Acho que estou ficando louca, pensou a mulher, como ele pode estar tentando não me assustar?” 

E assim foi no dia seguinte e no outro e nos outros que se seguiram. O cachorro esperava a mulher na esquina. Ela não afagava sua cabeça e ele não abanava a cauda. Apenas a seguia, até que, ao chegar no ponto do ônibus, ele a esperava subir na condução que a levaria para casa. 

Era um cachorro diferente, concluiu a mulher. Nada pedia. Nem comida, nem afagos. Queria somente a sua companhia naquele breve trajeto. Ia satisfeito, caminhando ao seu lado e só retornava quando tinha certeza que ela havia entrado no ônibus. Uma vez a mulher saltou um ponto adiante e voltou correndo para descobrir aonde o cachorro ia. E encontrou-o parado no mesmo lugar. Não se mexera. Como se soubesse de antemão as suas intenções. Muito estranho... sentia-se como em um episódio do além da imaginação. Ou será que é pegadinha? É pegadinha, só pode ser, concordou olhando discretamente para os lados para ver se encontrava a câmera. Ela nunca achou a câmera escondida...mas o cachorro, esse estava lá, sempre, todos os dias, na esquina, em frente a romãzeira que perdeu as flores e ganhou frutos. E seus olhos brilhavam quando via a mulher. Era como uma espécie de dever: esperar e proteger. Porque é assim que ela se sentia: protegida. Mas por quê? Construía mil fantasias: era um extraterrestre. Estava numa missão importante: estudar os terráqueos, e entender como podiam sobreviver com suas vidas solitárias, com suas mesmices e desilusões. Só podia ser...

O importante é que a mulher passou a colorir seus dias com um tom outro que não o cinza. E quando pensava no cachorro, com seu jeito manso e nobre de cachorro velho e sábio, com aquele sorriso discreto no focinho repleto de pêlos brancos, a mulher iluminava-se, seu coração pulsava de um jeito diferente e ela arriscava-se a trautear uma melodia há muito esquecida que a fazia lembrar de pique, de roda, amarelinha e cama de gatos.

E a romãzeira perdeu os frutos. Suas sementes serviram para fazer amuletos de boa sorte no dia de Reis e o cachorro estava sempre lá. E esperava. 



Abaixo segue um trecho de "ARISTOGATOS" de Martha Medeiros



Imagino que, com essa crônica, eu esteja revelando o lado menos nobre do meu ser. Pareço tão sensata, tão bem resolvida, tão madura - quá! - tenho outra por dentro. Que vergonha. Levei mais de 40 anos para me dar conta de que não faço questão de uma criatura que me siga, que me agrade, que me idolatre, que me atenda imediatamente ao ser chamado, que me convide pra passear com ele todo dia. Sendo charmoso, na dele e possuindo ao menos alguma condescendência comigo, tem jogo.
         Cristo, um simples gato me fez descobrir que sou mulher de bandido.

Alguma Mágoa

Alguma mágoa



 Vinha trazendo no coração uma mágoa antiga que só fazia doer. Não sabia o que fazer com ela. E como apertava... E como doía... Ficava ela ali no canto esquerdo, bem quieta. Dava os ares de sua graça nas horas mais impensáveis. E como manchava... E como mexia... Pulava no peito como bola desgovernada que desce a ladeira sem olhar para os lados. Queria esquecê-la. Queria traí-la. Trancá-la lá fora sem pena da chuva. Deixando-a molhar como pano de porta, que sem borda aos poucos se encharca. Queria poder juntá-la com as mãos e com desespero de marujo perdido, arrancá-la para fora do barco. Deixá-la à deriva em companhia das ondas. Ela que se salvasse. Que se afogasse lentamente na imensidão fria dos mares. De longe eu acenaria em meu iate invencível, lamentando por não ter feito isso há mais tempo. Feliz por ter extirpado todo o tumor. Chegaria em casa tranqüila, talvez cansada da viagem. Tomaria uma Novalgina e iria cheia de graça pra cama. Sonharia com cores impossíveis e palavras ainda perdidas. Acordaria plena. Descansada. Completamente feliz. Escreveria meus versos roubados do invisível e ouviria os sons capturados do mundo. Prosseguiria vivendo a procura do irreal e do permitido. E seria feliz se não fosse a falta que se alojaria no peito clamando pela mágoa uma vez perdida, a reclamar junto com a lua sua ausência.


(Alice Venturi)