terça-feira, 2 de novembro de 2010

intuition




Sempre que eu começava a gostar de alguém, alguma coisa me dizia pra deixar os esforços de lado.

O tal amor não vale a pena. Não vá às penas, babe - dizia minha intuição aguçada.

Todas as possibilidades de felicidade ficaram em algum canto empoeirado do passado. Desde então, tornei-me viajante do tempo e as palavras não me alcançam mais. Sei, antes de qualquer indício, quando algo vai dar errado. Aprendi a enxergar o que existe por trás das aparências, além do que se mostra.

Não me diga o que fazer, não tente me convencer. Tenho o sexto sentido de almas mudas.

Por isso, meu bem, não diga nada.

Aprenda a se fazer satisfeito com o que pode sentir.


          
(des) confiança

Antonia era a melhor vendedora da loja. Sabia adivinhar o que as pessoas desejavam. Acertava na mosca, sempre. Uma vez, vendeu um aparelho de barbear para uma senhora que queria limpar o tapete peludo que tinha na sala. Conseguiu convencê-la de que cortar rente ao chão era a solução.

Tinha ótimos resultados em concursos e provas, porque conseguia pressentir o que ia cair. Estudava só o que interessava à sua intuição aguçada. Além disso, sempre sabia de grandes possibilidades para números de loteria, já tinha virado consultora para assuntos de sorte e azar. As pessoas ficam pasmas: "Ela não erra uma. Deve ser mediúnica". Mas Antonia não ligava muito para essas coisas.

Um dia, chegou em casa mais cedo do trabalho e o encontrou lá, suado, debaixo do corpo de outra mulher. O susto foi tão grande que, sem pensar duas vezes, enfiou-lhe a faca de pão nas costas.

Posso não ter previsto, mas cega eu não sou!

(Samantha Abreu)

droga

...desdobrando abstratos, observando nuances, transpassando paredes a fim de saber o que pensa, se me espera, se me quer e o que faz.
Não faz sentido viver a vida de outra pessoa e perco ainda mais a razão em não conseguir distinguir o que cabe a mim e o que convém ignorar. Qual é minha identidade, o que de fato me pertence? O cheiro, as canções e o que já estava em mim passou a ser tão seu quanto meu. 
 Já não tenho domínio dos espaços dentro do meu eu. Contraditóriamente é um dentro tão vazio,  uma ocupação que não preenche.
Dias que se vão penitenciando minha vida inutil.
A raiva demorou a chegar. Mas quando enfim vier, me envergonharei de cada pensamento, de cada instante consumido envão. 



domingo, 22 de agosto de 2010

Frágil - Caio Fernando de Abreu

 Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

a mais pura verdade - Arnaldo Jabor

A MAIS PURA VERDADE...

A medida que envelheço e convivo com outras, valorizo mais ainda as mulheres que estão acima dos 30. Elas não se importam com o que você pensa, mas se dispõem de coração se você tiver a intenção de conversar. Se ela não quer assistir ao jogo de futebol na tv, não fica à sua volta resmungando, vai fazer alguma coisa que queira fazer...

E geralmente é alguma coisa bem mais interessante. Ela se conhece o suficiente para saber quem é, o que quer e quem quer. Elas não ficam com quem não confiam. Mulheres se tornam psicanalistas quando envelhecem.

Você nunca precisa confessar seus pecados... elas sempre sabem... Ficam lindas quando usam batom vermelho. O mesmo não acontece com mulheres mais jovens... Mulheres mais velhas são diretas e honestas. 

Elas te dirão na cara se você for um idiota, caso esteja agindo como um!

Você nunca precisa se preocupar onde se encaixa na vida dela. Basta agir como homem e o resto deixe que ela faça... Sim, nós admiramos as mulheres com mais de 30 anos! Infelizmente isto não é recíproco, pois para cada mulher com mais de 30 anos, estonteante, bonita, bem apanhada e sexy, existe um careca, pançudo em bermudões amarelos bancando o bobo para uma garota de 19 anos...

Senhoras, eu peço desculpas! Para todos os homens que dizem: "Porque comprar a vaca, se você pode beber o leite de graça?", aqui está a novidade para vocês: Hoje em dia 80% das mulheres são contra o casamento e sabem por quê?

"Porque as mulheres perceberam que não vale a pena comprar um porco inteiro só para ter uma lingüiça!". Nada mais justo!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Libertação das Mulheres

 A "libertação da mulher" numa sociedade escravista como a nossa deu nisso: Superobjetos. Se achando livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor, carinho e dinheiro.
São escravas aparentemente alforriadas numa grande senzala sem grades.
Mas, diante delas, o homem normal tem medo.
Elas são "areia demais para qualquer caminhãozinho".
Por outro lado, o sistema que as criou enfraquece os homens.
Eles vivem nervosos e fragilizados com seus pintinhos trêmulos, decadentes, a meia-bomba, ejaculando precocemente, puxando sacos, lambendo botas, engolindo sapos, sem o antigo charme "jamesbondiano" dos anos 60.
Não há mais o grande "conquistador".


(Arnaldo Jabor)

paixão e projeção

 'Segundo alguns psicanalistas quando se apaixona você não se relaciona com alguém de carne e osso mas com uma projeção criada por você mesmo e a projeção que fazemos é a de um ser completamente perfeito. mas depois de um período a projeção acaba e você passa a enxergar de verdade a pessoa com que está se relacionando invariavelmente algumas virtudes do parceiro ou da parceira vão embora com a projeção...

outras ficam...

e se o que ficou de cada um for suficiente para os dois, a relação perdura.

caso contrário... ninguém sabe o que faz o botãozinho ligar e iniciar uma nova projeção.

o amor é inexplicável.
mas tem coisas que você pode entender...'

(Sigmund Freud)

sábado, 7 de agosto de 2010

Sisters - Martha Medeiros


SISTERS

Sempre que chega o Dia Internacional da Mulher, procuro fugir do discurso de vitimização que a data invoca. Não que estejamos com a vida ganha, mas creio que as mulheres já mostraram a que vieram e as dificuldades pelas quais passamos não são privilégio nosso: injustiça e violência são para todos.
Temos, ainda, o grande desafio de conciliar as atividades domésticas com a realização profissional, e precisamos, naturalmente, da parceria do Estado e da parceria dos parceiros: ser feliz é um trabalho de equipe. Mas não vou utilizar o 8 de Março para colocar mais água no chororô habitual. Prefiro aproveitar a data, este ano, para fazer um brinde à nossa importância não para a sociedade e nem para a família, mas umas para as outras.
Assistindo em DVD ao delicado filme Caramelo, produção franco-libanesa do ano passado, tive a sensação boa de confirmar que o tempo passa, os filhos crescem, os corações se partem, mas as amigas ficam. Como todos os filmes que abordam a amizade e a solidão intrínseca de toda mulher, Caramelo nos consola valorizando o que temos de melhor: a nossa paixão, a nossa bravura (“sou mais macho que muito homem”) e o bom humor permanente, mesmo diante de tristezas profundas.
No filme, elas são cinco: a amante de um homem casado, a que tem pavor de envelhecer e por conta disso se submete a situações humilhantes, a garota muçulmana com casamento marcado que precisa esconder do noivo que não é mais virgem, a enrustida que se sente atraída por outras mulheres, e a senhora que desistiu de investir no amor para cuidar da irmã mais velha, que é mentalmente perturbada. Todas diferentes entre si e todas iguais a nós: mulheres conflituadas, mas que podem contar umas com as outras em qualquer circunstância. Recentemente recebi por e-mail um texto anônimo, em inglês, que falava justamente sobre isso: precisamos de mulheres a nossa volta.
Amigas, filhas, avós, netas, irmãs, cunhadas, tias, primas. Somos mais chatas do que os homens, porém, entre uma chatice e outra, somos extremamente solidárias e companheiras de farras e roubadas. Esquecemos com facilidade as alfinetadas da vida e temos sempre uma boa dica para passar adiante, seja a de um filme imperdível, de uma loja barateira ou de uma receita para esquecer da dieta.
Competitivas? Talvez, mas isso não corrompe em nada a nossa predisposição para o afeto, a nossa compreensão dos medos que são comuns a todas, a longevidade dos nossos pactos, o nosso abraço na hora da dor, a nossa delicadeza em momentos difíceis, a nossa humildade para reconhecer quando erramos e a nossa natureza de leoas, capazes de defender não só nossos filhotes, mas os filhotes de todo o bando.
Aprendemos a compartilhar nossas virtudes e pecados e temos uma capacidade infinita para o perdão. Somos meigas e enérgicas ao mesmo tempo, o que perturba e fascina os que nos rodeiam. Brigamos muito, é verdade: temos unhas compridas não por acaso.
Em compensação, nascemos com o dom de detectar o sagrado das pequenas coisas, e é por isso que uma amizade iniciada na escola pode completar bodas de ouro e uma empatia inesperada pode estimular confidências nunca feitas. Amamos os homens, mas casadas, mesmo, somos umas com as outras.

independência e trabalho

'Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que 
ser independente. 
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito 
mais livre para ir e 
vir. 
Desde que lembre de separar alguns bons momentos da 
semana para usufruir 
essa independência, senão é escravidão, a mesma que 
nos mantinha trancafiadas 
em casa, espiando a vida pela janela. 
Desacelerar tem um custo. 
Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel 
decorado pelo Philippe 
Starck e o batom da M.A.C. 
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter 
tudo isso, francamente, 
está precisando rever seus valores. 
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha 
rústica à beira-mar e 
o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser 
prazeres cinco estrelas 
e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, 
uma vida interessante'.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

samsa - virginia flores


Eu poderia dizer tudo falar todos os meus palavrões o caos que você colocou na minha vida e no meu corpo. Mas o caos eu permiti, eu mesma permiti o caos e a doçura dos teus braços, assim, como uma tonta que se entrega ao príncipe que nunca existiu.
Vejo agora esta barriga inchando de dor e prazer, uma loucura, as minhas pernas moles, os meus dentes rangendo de raiva e de ausência. Porque eu sinto as patinhas se movendo, as asinhas roçando aqui por dentro, porra, eu sei. É você crescendo dentro de mim, mas isso não é amor, nunca foi, é apenas a desorganização do corpo, o caos da boca e dos arrepios.
Lembro ainda das tuas asas, dos teus olhos quentes. Lembro mais que eu perdi o controle, eu, sempre tão centrada, os pingos nos iis, uma mulher com o mundo aos seus pés. Aos meus pés agora restam apenas o inchaço e o calor, as patas de elefanta.
Mas eu quis, ah!, como eu quis... E foi como abrir a janela para a tempestade. Uma ventania, você, suas asas espalhando papéis no meu quarto, levantando os lençóis, o sopro sedutor.
Hoje considero tudo isso um nojo, você um nojo, jamais outra vez. Mas levarei tudo até o fim, ainda me resta um pouco de vergonha na cara, essas tuas patinhas fazendo cócegas na minha barriga, essas asinhas que vão se abrir em breve e partir em busca de outra como eu, outras. Mas não pense você que eu vou dar ao inseto o nome de Gregor Samsa, como você quer.

anamnese



Era uma dor muito estranha. Aguda e lancinante, que fazia suar e ter vertigem, por vezes, uma lágrima.

Durava o tempo que se a sentisse.

Rastreados os órgãos, fígado, baço, rins, tudo em ordem. Pele, músculos, nervos e tendões sem avarias. E a dor lá, doendo.

Tomava todos os analgésicos inventados, tinha conta na farmácia. E a dor não passava.

Dentista, homeopata, clínico geral e, mesmo, geriatra não detectavam a origem.

Chegou a consultar mãe de santo. Fez trabalho no mato, jogou búzios, procurou cartomante, bebeu poções.

Não adiantava.

Toda vez que olhava o espelho, lá estava a dor.



dia do finado

 ...é, infeliz, marca sua existência contemplando a minha, ou então...



dia de finado

Era um chuvoso feriado no cemiterio,
quando a viúva apareceu no túmulo esquecido.
Sorriu para a rachadura no mármore velho,
gotejando sobre a cabeça do falecido.

poema de Romina Conti




pteroframes surgem
na imagem

logo se vê o fantasma.
e além disso
se dissolvem
os chuviscos

alguns seres
orgânicos que
me causam náusea
como o carrapato-azul
e a lampreia e
os vagalumes
com lâmpadas
na ponta de
suas bundas
piscam
estroboscópicas

mas os piores
são os homens com
monitores voltados
para o próprio cu
e o umbigo colado
no ego

sabendo que
todos acabaremos lá:
sete palmos abaixo

felicidade - Santa Maria

felicidade



Dizia que me amava todos os dias e noites.
Beijava com ardor antes de dormir e ao acordar.
Chegava em casa e me trazia presentes.
Surpreendia com palavras e gestos românticos.
Jantávamos fora todos os finais de semana.
Construiu uma casa de praia para passarmos as férias.
Viajávamos para outros países anualmente.
Trocou o meu carro por um praticamente zero.
O último cartão de crédito que ele me deu era ilimitado.
Adorava que eu fosse ao salão e comprasse roupas novas.
Me achava bela e gostosa desde quando nos conhecemos.
Era o homem perfeito. O marido que toda mulher sonhou.
Agora entende por que eu o matei?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Interrogação



 Tenho vontade de encher parágrafos e mais parágrafos com pontos de interrogação. É tudo o que eu penso em escrever. Tenho mil perguntas para fazer e parece que quanto mais respostas, mais dúvidas surgem. Quanto mais me conheço, menos sei o que fazer de mim. Quero explodir, mas me contenho, quero me impor, mas me escondo, quero gostar, mas racionalizo. Onde vou chegar se não me soltar? Tenho medo de ficar presa nessas linhas. Tenho medo do que eu escrevo se tornar realidade. E se eu ficar muito Verônica? E se eu tiver que ser alguma coisa pra sempre, porque o que está no papel não se apaga mais, e estou escrevendo quase certezas sobre mim o tempo todo?

 Crescer lendo livro mulherzinha fez com que eu jamais me conformasse com metades. Quero os melhores romances, ou prefiro ficar sozinha. Quero as melhores lembranças, ou prefiro não lembrar. Ou vivo intensamente, ou vou levando essa rotina que não incomoda, não interfere, não fere, mas também não é vida. Vou dispensando tudo o que não julgo suficiente pra me roubar a solidão. Vou excluindo do meu convívio todos que não parecem prontos pra marcar meu dias. E vou me excluindo um pouquinho também, vou me dispensando sem pudores, porque é mais fácil me deixar de lado do que lidar com a minha falta de coerência.

 Mais questões, mais lacunas. Quanto mais aprendo sobre mim, mais boicoto meus conhecimentos. Quero contradizer todas as afirmações que faço lutando para entender o que se passa em mim. Não devo ser tão complicada, mas ser extremista faz com que os sentimentos que divido com toda mulher sirvam como base pra decidir tudo na minha vida. Indecisões são capazes de preencher meu dia, mudar minha vida, acabar com meu humor. Possibilidades tentam perfurar meu estômago, atravessar meu corpo, tentam me destruir antes mesmo de terem permissão para acontecer.

 Estou ficando morna de tanto não me permitir ir além, de tanto calcular meus passos, me esconder em falsa timidez, evitar sentimentos, evitar relacionamentos, evitar gente só por ser gente e pela possibilidade de alguma coisa dar errado. Posso correr o risco de dar certo?

 Estou prestes a mergulhar. Dessa vez, não insistam, vou dispensar o equipamento de segurança.

(Veronica H.)

Loucuras tão sóbrias



É madrugada e a casa ainda grita. Os finais de semana viraram dias longos pra mim. Tão cheios de vontade de dormir sem sono. Tão cheios de fugas e tentativas de alegrias frustradas. Ninguém tenta entender minha distância necessária, nem colabora com a minha necessidade de sumir. Posso exigir isso de alguém?
Quem sou eu pra contradizer a literatura e tentar me livrar do que eu conquisto? Eternamente responsável... Talvez meu problema seja esse: assumir mais responsabilidade do que eu me sinto capaz de cuidar.
Eu não sei onde foi que me perdi. Sei que faz tempo e faz mal. Sei das noites que a sensação de ausência me manteve desperta e sem vontade de qualquer coisa. Eu me criei vazia e não soube preencher. Mas sinto que ainda necessitando de distância e tempo pra pensar sozinha, eu quero mesmo é alguém que me faça mudar completamente de opinião. Que faça meu corpo querer companhia nos momentos em que minha mente insiste pela solidão. Que faça meu coração lutar contra minha razão que tanto toma conta de mim sem saber se é isso mesmo que eu quero. Se nem eu sei o que quero.

(Veronica H.)

VIRGINDADE EMOCIONAL - Martha Medeiros

 Todo mundo sabe o que é sexo. Nasce intuindo e em seguida vira PhD, pois basta ligar a tevê ou abrir uma revista e as informações caem no nosso colo com riqueza de detalhes. Masturbação, sexo oral, ponto G, preliminares, orgasmos múltiplos: você pode ser virgem na prática, mas sabe tudo na teoria e vai mandar bem quando chegar sua vez.
 A pessoa virgem têm suas dúvidas, claro, e cria algumas fantasias antes da estréia, mas logo descobre que sexo é uma atividade saudável, prazerosa e que fica melhor com o tempo. Não tem muito mistério. O problema é quando se é virgem no coração.
 Virgindade emocional não tem a ver com juventude. Você pode ter vida sexual ativa desde os 14 anos e chegar aos 30 sem saber nada sobre o amor.
 Pode ter transado com dezenas de pessoas e uma que nunca lhe encostou um dedo abalar você de forma surpreendente. Pode estar casado e com filhos, achando-se o bambambam dos relacionamentos, e ser nocauteado por uma paixão que põe por terra todas as suas certezas. Podemos ser experts em sexualidade, mas passamos a vida engatinhando quando o assunto é amor.
 De certa maneira, é uma virgindade que não se extingüe. Mesmo os mais experientes, aqueles que já amaram muitas vezes, até esses podem ser flagrados em uma situação-limite.         
 A primeira vez em que se é deixado. A primeira vez que ficamos fragilizados com a ausência de uma pessoa. A primeira vez que sentimos um ciúme doentio. A primeira vez que ficamos dependentes de uma relação. A primeira vez que alguém fica dependente de nós. A primeira vez que traímos. A primeira vez que somos traídos. Tudo isso é um aprendizado muito mais intenso do que o sexo, e muito mais demorado.
 Se isto parece assustador, por outro lado é excitante saber que ainda existe muito terreno a ser explorado, muitas lições para serem aprendidas, muitas posições a serem adotadas diante de um impasse amoroso, posições que nada tem a ver com o Kama Sutra. Não há manual de instruções para o amor, não há reportagem que nos ensine a melhor performance. 
 Emocionalmente, por mais que já tenhamos vivido, seremos sempre um pouco virgens, aguardando a próxima primeira vez. 

Independência ou morte - Martha Medeiros

Tem uma série de coisas que a gente deseja na vida: uma profissão que nos realize, uma intensa vida afetiva, viagens, amigos, descobertas. Mas se eu tivesse que resumir em uma única palavra o que considero a mais importante conquista, esta palavra seria independência.
Começou a contagem regressiva para o 7 de setembro, dia em que se comemora a independência do Brasil. No entanto, prefiro comemorar a minha, a sua, a nossa.
 Não há quem não sonhe em trabalhar por conta própria, ser patrão de si mesmo. Os que conseguem não trocam por nada. Como conseguir isso? Dominando um ofício, indo além do que os outros aprenderam, fazendo as coisas do seu próprio jeito, arriscando. Parece difícil, e é. E mais difícil ainda é ser independente no amor.
 Paixão não entra nessa conversa. Quando estamos apaixonados somos todos dependentes de telefonemas, de e-mails, de declarações, de presença constante. Já o amor, que é um estágio posterior, mais sereno e seguro que a paixão, permite o desenvolvimento da independência. Você não precisa estar em todos os lugares que o seu amor está, você não precisa concordar com tudo o que ele pensa, você não precisa abdicar dos seus projetos, você se sustenta, você conta, você existe.
 Tem gente que abre mão disso por puro comodismo. Prefere ser uma sombra, um sparing . Defende-se dizendo que não tem outro jeito. Mentira. É uma escolha.
 Ir sozinha ao cinema. Viajar. Pagar sua dívidas. Dirigir. Não afligir-se (tanto) com a opinião alheia. Saber cozinhar pra si mesmo, entreter-se com hábitos solitários como a leitura, pegar um táxi, resolver os próprios problemas, tomar decisões com confiança. Não “precisar” dos outros, e sim contar com os outros para aquilo em que eles são insubstituíveis: companhia, sexo, risadas, amizade, conforto.
Se você ainda não atingiu este estágio, suba num cavalo imaginário e dê seu grito do Ipiranga. Ficar amarrado à vida alheia faz você viver menos a sua. Nada de fazer-se de desentendida só para não se incomodar. Incomode-se. Dependência é morte.

As razões que o amor desconhece / Sentir - se amado



 As razões que o amor desconhece
   Você tem uma inteligência bem acima da média. Lê livros, revistas e jornais. Gosta de filmes de Woody Allen, dos irmãos Coen e de Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido em comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego estável, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, entende muito de computador e seu fettuccine ao molho de ervas é de fazer qualquer um comer ajoelhado. Você tem bom humor não pega no pé de ninguém e acredita que ainda não inventaram nada melhor que sexo. Com um currículo desses, criatura, por que diabo está sem namorado? Há, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento mais uma equação matemática : eu maravilhosa + você encantador = dois apaixonados. Não funciona assim. Ninguém ama a outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrario os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo-lhes a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece a razão. 
 O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Costuma ser despertado pelas flechas do cupido que por uma ficha limpa. Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai ligar e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário e só escuta Ernesto Gismonti e Sivuca, Sivuca e Ernesto Gismonti. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado, e, no entanto, você não consegue dispensa-lo. Quando a mão dele toca em sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita de boca, tem uma certa afeição por répteis e escreve poemas em noites de temporal. Por que você é vidrada nesse cara?
 Não pergunte a mim. Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas a que ela não respondeu, você deu flores e ela deixou a seco, você e levou para conhecer sua mãe e ela foi de blusa transparente. Você gosta de Rock e ela de trilha de novela, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano-Novo, nem no ódio vocês combinam.              

 Então? Então que ela tem um jeito de passar a mão nos cabelos que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, se veste bem e é fã de Marisa Monte. Isso são apenas referências. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pelo modo como os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos espera. Ama-se por causa de uma massagem nos ombros, pela maneira de sorrir só com um lado da boca, pelas peculiaridades. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos há as pencas, bom motoristas e bons pais de família, está assim, ó. Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor de sua vida é.




 Sentir-se amado


A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização


      O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama.



      Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.

Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se.
A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também?
Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.
Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. "Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho."
Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d’água. "Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando?" Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. "Vem aqui, tira esse sapato."
Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido.
Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.


      Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.



(Martha Medeiros)

terça-feira, 13 de julho de 2010

desalinho

...Perfect!






Desalinho


Quer almoçar comigo amanhã? Preciso contar o que eu sinto quando saio sem você e no que estou pensando quando olho sem piedade para todas as mulheres que cruzam o meu caminho. Entenda, de você eu não espero mais do que estar ao meu lado até o fim. Acordarmos todos os dias juntos. Você ignorar insistentemente as minhas tentativas de arrancar da sua boca qualquer frase que revele a posição que ocupo numa hipotética escala de grandes amores da sua vida. Mas sei que você é incapaz de dedicar seu corpo só a mim.

Invejo seu cinismo. O modo prolixo como nega sua dependência e reafirma com a ladainha das seis horas seu credo inabalável no amor livre. Nesta altura da vida o que me faltava eram ideais libertários! Saiba, eu prefiro a caretice das declarações de amor, as mãos dadas, o presente no dia dos namorados.

E vou me desculpando pela ingenuidade descrita sem vergonha nesta folha branca, enquanto ouço aquela fita k7 que você gravou pra mim quando ainda não estavam domesticados os gravadores de cd e acabáramos de fazer a primeira comunhão.

Foi tão logo você me deixou. Saí procurando o que abraçar. Pensei há quanto tempo eu só sentia o gosto da sua pele e só sabia da textura engraçada do seu cabelo. Meus braços cruzados tinham a forma do seu corpo, nada mais se encaixava. Pensei em todos os xingamentos da língua e queria que estivesse ao meu lado para não precisar recitá-los em voz alta no meio da rua. Eu nunca falei palavrões pra você.

Também não conjuguei o verbo amar. Mas isso não demorou você percebeu. Tanto que foi embora. Sei que espera que eu esteja no mesmo lugar, com o mesmo vento sul levantando meu cabelo, quando você chegar. E eu vou estar. A vida foi suspensa quando seu ônibus partiu. Confesso que procurei um lenço para balançar, um chapéu de feltro cinza para acenar, mas você não olhou pela janela. Gosto de imaginar que o ônibus quebrou na estrada e você ainda não chegou ao seu destino. É por isso que demora tanto a voltar.

Depois andei a tarde toda pelas ruas asfaltadas do meu bairro juntando galhos secos de árvores escassas. Arranquei duas ou três folhas do mês de dezembro da minha agenda. Pedi emprestado ao porteiro do prédio seu isqueiro bic amarelo. Abri a porta do meu guarda-roupa e escolhi a blusa de malha branca com estampa do Belle and Sebastian. Aquela que você usava para dormir quando já era tarde demais para ir embora. Depois de jogar da varanda as cinzas do que me lembrava você, decidi que era hora de apagar minha memória.


(  siria grei  )

abricó


  Mais um texto com a seguinte temática: será q é homem?
 Nada contra os gays, mas ai que tá,  já dizia o poeta Falcão : Homem é homem, menino é menino, macaco é macaco e viado é viado! - não necessariamente nessa ordem, mas a alteração dos fatores não altera o produto.
Tive que anexá-lo ao blog, néah...




abricó



Chegará com uma hora de atraso de propósito ao encontro com Luiz Augusto Mendes Campos Carneiro de Sá. Nunca tinha saído com um cara com o sobrenome "de" e enorme. Será que o nome é proporcional, que nem número de sapato? Quer criar suspense e não quer que ele imagine que ela é do tipo que "dá" mole, do verbo transar e não o "de" do Sá. Resolve ir de forma classuda, vestido longuette sem decote, pouca maquiagem, cabelos presos num coque tradicional. Só vai falar, aliás, pronunciar como a nobreza faz, algo que cause impacto. Jules Renard, autor francês do século XIX, leu algo sobre este cara na revista de TV. Citará o Jules, a revistinha jamais. Célula-tronco também é sintoma de cultura. O cara é um industrial filósofo, um intelectual rico de esquerda, que adora pobre, mas não deve gostar de quindins, nem de guaraná. Vai pedir carpaccio com vinho. Instrumento? Violino. Tomates? Só secos, pois pega bem. Queijo? Ricota. Fruta? Figo. Profissão? Projetista de unhas, os sábios ricos vivem de projetos, manicure é de quem faz mobral. Sua casa terá varanda, quintal é coisa anticultural. Flor preferida será orquídea, rara e cara. Não falará gírias, nem palavrão. Finalmente, chegou seu momento de ascensão. Seu nome agora é Vânia Maria, Vaninha lembra cama. Ah! Bateu saudades do Ronaldo, bronco pra caramba, tronco sem célula, mas faz uma picanha como ninguém na churrasqueira e na cama também. Ela pode saborear tudo que adora, meter o dedo no rocambole, o bole-bole, o dedo, e até o ronca depois do bole! Ele nunca fica mole.

Só não abrirá mão do sapato vermelho cintilante com tirinhas. Naldinho goza só de olhar, e se o Luiz Carneiro de Sá Augusto Campo Mendes não gostar - será que o nome dele é esse mesmo?! - é boiola.

Longuette nunca lhe caiu bem, lycra que é o diabo. Lembrou novamente das compras do carrinho dele no supermercado no dia em que o conheceu. Licor de abricó é coisa de viado. Abricó!!! Vai que troca a vogal final?

Pegou o telefone e ligou pro Naldão.

- Traga a cerva e o violão. Tô só de combinação e com aquele sapato.

- E o conde D'Eu?

- Era gay, preferiu dar pro Jules Renard.




( rosa pena )