quarta-feira, 14 de julho de 2010

As razões que o amor desconhece / Sentir - se amado



 As razões que o amor desconhece
   Você tem uma inteligência bem acima da média. Lê livros, revistas e jornais. Gosta de filmes de Woody Allen, dos irmãos Coen e de Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido em comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego estável, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, entende muito de computador e seu fettuccine ao molho de ervas é de fazer qualquer um comer ajoelhado. Você tem bom humor não pega no pé de ninguém e acredita que ainda não inventaram nada melhor que sexo. Com um currículo desses, criatura, por que diabo está sem namorado? Há, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento mais uma equação matemática : eu maravilhosa + você encantador = dois apaixonados. Não funciona assim. Ninguém ama a outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrario os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo-lhes a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece a razão. 
 O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Costuma ser despertado pelas flechas do cupido que por uma ficha limpa. Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai ligar e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário e só escuta Ernesto Gismonti e Sivuca, Sivuca e Ernesto Gismonti. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado, e, no entanto, você não consegue dispensa-lo. Quando a mão dele toca em sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita de boca, tem uma certa afeição por répteis e escreve poemas em noites de temporal. Por que você é vidrada nesse cara?
 Não pergunte a mim. Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas a que ela não respondeu, você deu flores e ela deixou a seco, você e levou para conhecer sua mãe e ela foi de blusa transparente. Você gosta de Rock e ela de trilha de novela, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano-Novo, nem no ódio vocês combinam.              

 Então? Então que ela tem um jeito de passar a mão nos cabelos que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, se veste bem e é fã de Marisa Monte. Isso são apenas referências. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pelo modo como os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos espera. Ama-se por causa de uma massagem nos ombros, pela maneira de sorrir só com um lado da boca, pelas peculiaridades. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos há as pencas, bom motoristas e bons pais de família, está assim, ó. Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor de sua vida é.




 Sentir-se amado


A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização


      O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama.



      Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.

Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se.
A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também?
Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.
Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. "Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho."
Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d’água. "Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando?" Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. "Vem aqui, tira esse sapato."
Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido.
Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.


      Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.



(Martha Medeiros)

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