terça-feira, 13 de julho de 2010

desalinho

...Perfect!






Desalinho


Quer almoçar comigo amanhã? Preciso contar o que eu sinto quando saio sem você e no que estou pensando quando olho sem piedade para todas as mulheres que cruzam o meu caminho. Entenda, de você eu não espero mais do que estar ao meu lado até o fim. Acordarmos todos os dias juntos. Você ignorar insistentemente as minhas tentativas de arrancar da sua boca qualquer frase que revele a posição que ocupo numa hipotética escala de grandes amores da sua vida. Mas sei que você é incapaz de dedicar seu corpo só a mim.

Invejo seu cinismo. O modo prolixo como nega sua dependência e reafirma com a ladainha das seis horas seu credo inabalável no amor livre. Nesta altura da vida o que me faltava eram ideais libertários! Saiba, eu prefiro a caretice das declarações de amor, as mãos dadas, o presente no dia dos namorados.

E vou me desculpando pela ingenuidade descrita sem vergonha nesta folha branca, enquanto ouço aquela fita k7 que você gravou pra mim quando ainda não estavam domesticados os gravadores de cd e acabáramos de fazer a primeira comunhão.

Foi tão logo você me deixou. Saí procurando o que abraçar. Pensei há quanto tempo eu só sentia o gosto da sua pele e só sabia da textura engraçada do seu cabelo. Meus braços cruzados tinham a forma do seu corpo, nada mais se encaixava. Pensei em todos os xingamentos da língua e queria que estivesse ao meu lado para não precisar recitá-los em voz alta no meio da rua. Eu nunca falei palavrões pra você.

Também não conjuguei o verbo amar. Mas isso não demorou você percebeu. Tanto que foi embora. Sei que espera que eu esteja no mesmo lugar, com o mesmo vento sul levantando meu cabelo, quando você chegar. E eu vou estar. A vida foi suspensa quando seu ônibus partiu. Confesso que procurei um lenço para balançar, um chapéu de feltro cinza para acenar, mas você não olhou pela janela. Gosto de imaginar que o ônibus quebrou na estrada e você ainda não chegou ao seu destino. É por isso que demora tanto a voltar.

Depois andei a tarde toda pelas ruas asfaltadas do meu bairro juntando galhos secos de árvores escassas. Arranquei duas ou três folhas do mês de dezembro da minha agenda. Pedi emprestado ao porteiro do prédio seu isqueiro bic amarelo. Abri a porta do meu guarda-roupa e escolhi a blusa de malha branca com estampa do Belle and Sebastian. Aquela que você usava para dormir quando já era tarde demais para ir embora. Depois de jogar da varanda as cinzas do que me lembrava você, decidi que era hora de apagar minha memória.


(  siria grei  )

Nenhum comentário:

Postar um comentário