segunda-feira, 5 de julho de 2010

Essencial invisível aos olhos

  Hoje eu acordei com uma mordida felina, é... minha gata mordendo "carinhosamente" meu cabelo, para que eu acordasse. Dispertei para o dia, coloquei comida para ela e também para minha cachorra, e imediatamente percebi o quanto minha presença as torna mais animadas, como se faltasse o meu despertar para que o amanhecer fosse completo. Tá, acho que me empolguei na teoria, mas não tenho como disfarçar como é nítida a gratidão de seres que se importam com a presença e atenção mais do que com palavras, conta no banco, aparência, apenas o essencial para o bem estar.
Sabe, as vezes o pensamento que ocupa minha mente é justamente em relação á atitudes dos animais versos atitudes humanas. 
É óbvio que o ser humano é inteligente, porém o que difere não é a inteligência em si, mas o modo como é demonstrado e efetivamente transmitido essa inteligência e esperteza  na relação com os demais seres, resumindo: o que é que você, como ser humano inteligente, dotado de experiências, estudos e conhecimentos, faz de relevante para os demais seres que rodeiam sua vida, direta e indiretamente? 
Confesso que não tenho grandes considerações para com a maior parte dos meus vizinhos, por exemplo, mas sei, piamente, que é pelo fato de saber, ainda que inconscientemente, que tais considerações exigem uma certa confiança e afinidade, ou seja, fatores que são impagáveis, naturais.
Animais (me refiro diretamente aos domésticos) são espertos por natureza, tem instinto de sobrevivência, e levam consigo o encargo de "atuar e se defender tão somente para sobreviver", todavia, não dispensam o carinho, também transmitem a generosidade e, consequentemente, todo o afeto. É isso que comprova que carinho, respeito e generosidade são fatores essenciais e básicos para sobrevivência. 
 Comprovações simples passam despercebidas por nós, não por que não somos suficientemente inteligentes para constatá-las, mas por não refletir sobre estas. Por serem tão óbvias a tratamos como teorias para não serem analisadas e posteriormente aplicadas de alguma maneira. Esse é o grande erro da humanidade. Dispensamos os conceitos básicos, as obviedades, consequências e necessidades essenciais, quando estas podem alterar nosso hábito, nos obrigando a perder tempo, modificar rotina e, acima de tudo, pensar e agir para o próximo tanto quanto (ou mais) do que para nós mesmos.
É por essas e outras que tenho mais amor e consideração por minha "Pincher zóiudinha" e minha "gata vira lata vesga" do que por boa parte de seres humanos, que se auto - intítulam inteligentes, superiores e relevantes.  

Segue, abaixo, o texto da autora Daisy Melo. De tão lindo, li e reli diversas vezes, me identifiquei não apenas com o conceito, e/ou desfecho, na verdade, foi mais com a introdução... vida automática, até eu que analiso cada coisinha pouco nítida, me deixo levar pela bendita rotina regrada, que consome os dias. No entanto, quem não lida com a rotina? O fundamental é não perde-la sem sentir emoção, sem resgatar e transmitir carinho, sem aproveitar, por que até na habitual rotina existem coisas simples, que alimentam muito mais que a básica sobrevivência.





Uma amizade tão delicada...




Seus dias eram sempre os mesmos. Acordava na mesma hora quando o sol ainda não nascera e tampouco a lua caíra do horizonte. Tomava o café, saía de casa às sete e até pegava a tal condução que era dirigida pelo mesmo motorista. Trabalhava sempre igual, mecanicamente, todos os dias, até que chegava a hora de ir embora. Para fazer o quê? Comer o jantar congelado, assistir aquela novela de sempre que de nova só tinha o título, o programa de entrevista que usava a mesma fórmula tarimbada de sucesso e, finalmente, dormir na sua cama, a mesma, há tanto tempo.



Mas ela tinha que sair do trabalho e voltar para casa, então, descia a rua, olhando as casas, considerando se naqueles jardins teria nascido alguma flor que, então, faria sua vida ter um quê de diferença. 

Naquele dia, enquanto contava as rosas do jardim da casa amarela, aquela com o pé direito alto e as janelas cremes sempre cerradas, a mulher o encontrou parado na esquina em frente à meia água mirrada onde plantada há uma romãzeira em flor. 

Ele observava a mulher com nítido interesse, com uma certa curiosidade nos olhos castanhos. Ela tentou não demonstrar, mas sobressaltou-se. Não podia revelar que estava com medo. Sempre soube que eles percebem quando estamos com medo e aí atacam. Mas o coração batia descompassado e, apesar de mudo dentro do peito, ouvia-o nas têmporas. Respirou fundo, passou com ar de quem não estava nem aí, enquanto ele permaneceu sentado. Apenas os olhos a seguiam — será que percebeu um ar irônico?— e, quando a mulher sentiu-se segura, deu uma olhadela de soslaio e ele continuava lá, parado. Um Vira-latas com focinho e pernas amarelas, dorso e cauda negra, peluda, parecendo um ponto de interrogação. Tinha um porte médio e um certo jeitão de cachorro que sabe o que quer da vida. 

A mulher esqueceu-se do acontecido durante toda a noite e durante o dia seguinte, até que ao sair novamente do trabalho, topou com ele, de novo, na mesma esquina. Olhava-a curioso, com a cauda movimentando-se lentamente de um lado para o outro. Fingindo não sentir medo, e tentando não correr, passou por ele tesa e, dessa vez o cachorro moveu-se e pôs-se a segui-la. “Ai, droga! O que será que ele quer de mim? Não tenho comida e nem ao menos gosto de cachorros!” Parecendo ler seus pensamentos, ele estancou com um ar decepcionado. E ficou ali até que, a mulher, um pouco surpresa, virou a esquina com pressa. Mas, no dia seguinte...

Lá estava ele parado no mesmo lugar! Ora, ela começou a ficar intrigada quando o cachorro a seguiu novamente, porém guardando uma distância respeitosa, tentando com certeza, não assustá-la. “Acho que estou ficando louca, pensou a mulher, como ele pode estar tentando não me assustar?” 

E assim foi no dia seguinte e no outro e nos outros que se seguiram. O cachorro esperava a mulher na esquina. Ela não afagava sua cabeça e ele não abanava a cauda. Apenas a seguia, até que, ao chegar no ponto do ônibus, ele a esperava subir na condução que a levaria para casa. 

Era um cachorro diferente, concluiu a mulher. Nada pedia. Nem comida, nem afagos. Queria somente a sua companhia naquele breve trajeto. Ia satisfeito, caminhando ao seu lado e só retornava quando tinha certeza que ela havia entrado no ônibus. Uma vez a mulher saltou um ponto adiante e voltou correndo para descobrir aonde o cachorro ia. E encontrou-o parado no mesmo lugar. Não se mexera. Como se soubesse de antemão as suas intenções. Muito estranho... sentia-se como em um episódio do além da imaginação. Ou será que é pegadinha? É pegadinha, só pode ser, concordou olhando discretamente para os lados para ver se encontrava a câmera. Ela nunca achou a câmera escondida...mas o cachorro, esse estava lá, sempre, todos os dias, na esquina, em frente a romãzeira que perdeu as flores e ganhou frutos. E seus olhos brilhavam quando via a mulher. Era como uma espécie de dever: esperar e proteger. Porque é assim que ela se sentia: protegida. Mas por quê? Construía mil fantasias: era um extraterrestre. Estava numa missão importante: estudar os terráqueos, e entender como podiam sobreviver com suas vidas solitárias, com suas mesmices e desilusões. Só podia ser...

O importante é que a mulher passou a colorir seus dias com um tom outro que não o cinza. E quando pensava no cachorro, com seu jeito manso e nobre de cachorro velho e sábio, com aquele sorriso discreto no focinho repleto de pêlos brancos, a mulher iluminava-se, seu coração pulsava de um jeito diferente e ela arriscava-se a trautear uma melodia há muito esquecida que a fazia lembrar de pique, de roda, amarelinha e cama de gatos.

E a romãzeira perdeu os frutos. Suas sementes serviram para fazer amuletos de boa sorte no dia de Reis e o cachorro estava sempre lá. E esperava. 



Abaixo segue um trecho de "ARISTOGATOS" de Martha Medeiros



Imagino que, com essa crônica, eu esteja revelando o lado menos nobre do meu ser. Pareço tão sensata, tão bem resolvida, tão madura - quá! - tenho outra por dentro. Que vergonha. Levei mais de 40 anos para me dar conta de que não faço questão de uma criatura que me siga, que me agrade, que me idolatre, que me atenda imediatamente ao ser chamado, que me convide pra passear com ele todo dia. Sendo charmoso, na dele e possuindo ao menos alguma condescendência comigo, tem jogo.
         Cristo, um simples gato me fez descobrir que sou mulher de bandido.

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